Eventos esportivos são fenômenos econômicos
Luiz Gonzaga Belluzzo - Economista e diretor de planejamento do Palmeiras
belluzzop@terra.com.br
Perguntam-me sobre as conseqüências econômicas da Copa do Mundo no Brasil. Meu primeiro impulso é devolver a bola quadrada ao interlocutor. Respondo com o mal da banalidade: na etapa atual da vida dos homens sobre a terra, os eventos esportivos globais são, sobretudo, fenômenos econômicos. A economia bateu a política em todos os campos, até mesmo nos campos de futebol.
Nos anos 30 do século passado e até recentemente, os Campeonatos Mundiais de futebol e as Olimpíadas serviram à competição entre sistemas políticos rivais. Nas últimas décadas, na toada da globalização dos mercados e da mídia, o futebol transfigurou-se em mercadoria cobiçada, quase em pé de igualdade com o dólar, em franco movimento de desvalorização. O jogo da bola com os pés atrai bilhões de torcedores apaixonados por suas paixões, tão humanas quanto incompreensíveis.
Não é surpreendente que a paixão dos apaixonados tenha sido apropriada e domesticada por um formidável aparato midiático-mercadológico, coordenado de forma racional pela FIFA. Afirmo que não se trata de um embuste, de uma falsificação das finalidades “verdadeiras” do futebol, senão de uma forma de ser, de um modo de existência do outrora chamado esporte das multidões.
O Caderno de Encargos da FIFA é um exemplo de boa técnica de planejamento estratégico, típica de uma grande organização moderna de prestação de serviços. A “entidade” - assim se expressam os entendidos na matéria - goza de privilégio inalcançável por organizações similares: tem o monopólio do serviço cobiçado.
A idéia central do Grande Coordenador é estabelecer, digamos, sinergias entre os governos do país-sede e os interesses dos grupos privados que se envolvem na transmissão dos jogos, na construção de estádios, nos patrocínios, na comercialização de produtos e na exploração de serviços. É difícil dizer se o ambiente internacional favorável à “precificação” de ativos vai se sustentar nos próximos anos. Caso o otimismo dos mercados com os emergentes se confirme (e se o governo tiver aprendido a lição do Pan) os orçamentos públicos padecerão menos do que suspeitamos, nós, os desconfiados de plantão.
Para a Copa de 2014, não há, ainda, uma estimativa confiável dos gastos em infra-estrutura e da participação do setor privado nas parcerias com o setor público. Em minha opinião, a maior dificuldade não está na construção ou reforma dos estádios, mas nas carências da infra-estrutura brasileira. Falo do transporte a longa distância - aéreo e terrestre -, do transporte urbano em muitas cidades. Tudo muito distante das condições da França, Coréia, Japão e Alemanha, sedes das últimas Copas. Aguardamos a África do Sul. Lá como cá, diga-se, não são satisfatórias as condições de segurança.
|